terça-feira, 10 de setembro de 2013

Benefício concedido

A emoção que eu senti quando li "Benefício Concedido" no site do INSS não dá pra descrever. Minha alma foi tomada por um sentimento profundo de alegria, tão autêntico e sincero que cheguei a tomar fôlego pra contar a novidade pra Nana. Caí de novo naquele choque de realidade. Pensão por Morte, nome triste, termo forte, é o que eu tenho direito. Depois de muita luta dos colegas em relação aos direitos homoafetivos, depois de muita discussão com pastor fanfarrão, de paradas e protestos, temos enfim nossas vidas em comum reconhecidas enquanto família. É como se a Nana dissesse: "Dê, você cuidou de mim até o último dia da minha vida, agora eu vou cuidar de você até o último dia da sua vida."
Então, por que eu não consigo parar de chorar? Por que eu não consigo fazer planos pro meu dinheirinho, que é meu por direito e merecimento? É porque eu sou uma besta. Porque queria mesmo fugir, sair correndo, ir pra algum lugar onde eu possa encontrar o meu amor pra lhe contar as novidades. Onde é esse lugar, como eu chego lá, alguém me diz?
Fui almoçar frango frito e pra acompanhar, Coca-cola. Sem culpa. Sem medo de que se entupam minhas veias com o colesterol do franguinho. Tô nesses momentos em que tenho pressa. Porque agora eu vou me vestir pra ir lá na Previdência buscar minha carta, pra abrir conta em banco, pra colocar as contas no débito automático porque eu nunca lembro de pagar mesmo e não tem uma Nana pra lembrar que a vida tá acontecendo lá fora e a gente precisa sair pra acompanhar. Me visto como para as outras cerimônias, velório, missa, escolher roupa de despedida. Mais uma vez tô saindo de casa pra me despedir do que ainda não acabou. Vou atrás do que será uma manifestação dela em matéria, o dinheiro que ela me deixou por sermos uma família. Eu vou ter meu próprio dinheiro, fazia tempo, eu não lembrava mais como era.
Agora serei independente de novo, aconteça o que acontecer, não passarei fome. Porque eu já tenho uma casa e uma renda. Posso viver de escrever, se quiser, dê isso algum retorno um dia ou não, estou resguardada. Nana cuida de mim agora. Vou ser gente, ter débito em conta, cartão, essas chatices da vida prática. Vou fazer planos um dia, vou fazer mil coisas, mas não agora, não neste momento. Neste momento, sinceramente, feliz só que não.

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