Já estamos no fim do mês de agosto, logo também é setembro e acaba o inverno.
O tempo continua andando, a vida e seus ciclos continuam e ainda parece que meu coração sofre umas agulhadas. Tudo, absolutamente tudo o que eu vou fazer, algo me remete a ela. Eu acordo pensando nela, eu fico sonhando com a sua presença, imaginando que ela está aqui. Converso com ela, falo que eu tô com saudade, falo que tá difícil, falo que vou amá-la para sempre.
Ontem foi tão difícil, me sentia tão abandonada, tão sozinha, tão incompleta. Um silêncio, uma lembrança de vácuo. Porque pra Nana, a vida era sempre uma celebração. Como eu queria ter herdado isso dela, fazer do fato de estar viva uma festa constante. Todos os dias eram de alegria, porque ela acordava abrindo as janelas, cantando, grata por ver o sol nascer mais uma vez. Doentinha que era, com as dores que sentia, com as baixas expectativas e todas as dificuldades, amanhecia dia após dia em estado de graça. E eu? Eu fazendo planos macabros de comer frango frito com coca-cola todos os dias e ainda por cima voltar a fumar, tudo pra acelerar o processo. Tenho relances de desespero, daí vai passando, passando, parece que alguém me acalma. Não sei se é ela, não sei sei são forças superiores, espíritos do bem que gostam de mim e tentam me ajudar. Mas tem alguma coisa, porque eu vou até um lugar muito ruim (onde há os tais planos de frangos nadando em gordura) e volto, mas volto como que resgatada, não venho sozinha, alguma coisa me trás. Doido. Queria entender, saber o que é, ou quem é. Talvez meu pai, meu irmão. Seriam meus avós ou mesmo amigos que já foram?
Já teve vezes em que eu me perguntei: "por que comigo?" e parece que vem uma voz e diz "ficar se fazendo de vítima não vai melhorar em nada a sua situação". É uma voz que eu escuto dentro da minha cabeça, mas parece uma imaginação que vem de fora, se é que me entende. Essas vozes, esses pensamentos que aparecem, acabam me consolando.
Gostaria muito de saber por onde anda esse povo que não tá mais aqui com a gente. Eu queria muito notícias da minha Nana. Onde ela fica, com quem está? Tenho ciúme, ela não está comigo... Eu não tive coragem de deletar seu Facebook, suas fotos, sua vidinha virtual. Não consegui dar fim em suas memórias, não consegui. Mas pra ela não ficar aparecendo e tal, ficar meio que um memorial, mudei seu nome para Raio de Luz e coloquei a foto de um anjinho. Mais suave, o meu anjinho que já foi embora mais cedo.
O tempo passa e a dor não acaba. Como faz pra machucar menos?
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